
Dorme poesia sem agasalho
apoiada nos escombros
Está exausta de gritos...
Os meus, os teus, os nossos!
Como pode ainda ser bela
tilintando de frio?
Poesia é senão esse cio
desalgemado de celas.

Dorme poesia sem agasalho
apoiada nos escombros
Está exausta de gritos...
Os meus, os teus, os nossos!
Como pode ainda ser bela
tilintando de frio?
Poesia é senão esse cio
desalgemado de celas.

Nunca gostei dos mistérios, nem mesmo em filmes. Sempre virei a cara, cobri os olhos e empurrei a adrenalina pelas vias devidas. Gosto das coisas às claras, transparentes; gosto daquilo que vejo de verdade quando estou diante de coisas, situações ou de pessoas.
Dizem que o mistério numa relação, seja de amizade, parceria, familiar...dá um tempero. Que tempero, pode me dizer? Onde é que fica o olho no olho? Por acaso intimidade é tão ruim assim? Dá medo (ô se dá), ou o que?
Tem gente que acha chato a previsibilidade, a certeza, a clareza. Eu acredito que isso elimina angústias, principalmente as da insegurança. Penso que a forma como casais lidam com conflitos numa relação, é o verdadeiro termômetro que vai deixar essa relação estável, confiável e pronta para tempestades devastadoras. Disse que ia ligar e ligou mesmo...puxa! Não é incrível?
A disponibilidade de eliminar dúvidas, rever conceitos, afrouxar o cinto da resistência para resolver problemas e ter conversas francas é o que, de fato, mostra comprometimento e passos no caminho de tentar ajustar-se na sintonia de uma boa parceria.
Putz! Fiz uma merda, disse uma merda, deixei de falar, deixei de fazer, pisei feio. Existe jeito? Para pessoas dispostas a acertar e comprometidas com a vida...sim! Como dizia meu querido nono... Só não tem jeito pra morte!
Não é bacana olhar a dificuldade que o outro tem em tantas coisas, mas é afetuoso olhar e se dispor a entender. Não é bacana ver o outro chorar, mas é afetuoso acolher. Não é bacana ficar sem respostas, mas é afetuoso estar ali do lado em silêncio. Não é bacana ver que nem sempre somos vitoriosos, mas é afetuoso estender as mãos nas perdas.
Quando deixamos de vislumbrar o próprio umbigo, abastecemos o coração para uma grande aventura... A de deixar-se sintonizar com as alegrias e dificuldades do outro, e daí, inevitavelmente, com as próprias; reconhecendo-se!
É só observar conversa virtual...beijo virtual...sexo virtual...sei lá. Você sabe se o seu interlocutor está realmente sendo verdadeiro? Sabe se ele ou ela está saboreando um belo sanduíche de mortadela, enquanto dizem: “Estou louco pra te comer”?
Não sabem e nunca vão saber...Mistérios!
Sentimentos não escalam monitores, telinhas ou telões. Sentimento vem de gente, não de máquinas!
Isso me fez lembrar do filme “Closer – Perto demais” – acho que é um filme de 2005 ou 2006, se não me engano. Quem não assistiu, eu recomendo.
Tem uma cena que um dos personagens (homem), fica trocando uma conversa virtual com outro (homem), achando que é uma mulher, e aí marcam um encontro. Tudo se desenrola num clima de sacanagem, e um deles literalmente libera seu pênis para fora da calça, a fim de se masturbar. Essa é a cena mais hilária, no meu ponto de vista. Real e engraçada!
Todo o filme é baseado em diálogos e sentimentos tão verdadeiros e escancarados que deixa visível o quanto às pessoas estão despreparadas para ouvir verdades, principalmente nas relações afetivas.
Diria que ele é um soco no estômago, e nem todos gostam disso. Ainda assim, vale a pena ver.
Talvez isso faça com que o mundo virtual funcione e tenha tanto sucesso assim. Numa troca de mensagens, você diz o que quiser, seduz como quiser...Você manda beijos, lambidas, e literalmente, trepa como quiser.
Na vida real, no olho no olho...essa oportunidade não advém apenas da vontade de provocar uma reação no outro, mas de muitas vezes, não se sentir segura para isso.
Quem diante de uma telinha consegue avaliar inseguranças... A câmera?
Quem, de fato, sabe o cheiro e o sentido das palavras virtuais?
Qual é o olho que cala, qual é o que fala?
Qual a intenção do monitor com bocas e genitais?
Não se sabe... Não tem como saber...
Não julgo quem acredita na excitação dos mistérios. A liberdade de ser, querer e fazer, deve ser usada do jeito que cada um achar melhor; mas particularmente, sou adepta da cara lavada, da falta de pose, e da proximidade da carne.
A vida e seus porquês já são o suficiente a ser desvendado no meu prato de cada dia.

... Pelo olho da vida um lamento
puxa os cabelos do amor
só prá distrair o tempo
Há em mim uma poesia que foge, escapa pelos cantos dos olhos. Desvia!
Há um arrebatamento que escancara meu peito, uma dor, um sopro, uma falta de jeito...
Talvez se deitar um pouco, ouvir música, esquecer de mim, para então deixar lembrar-me.
Quem sabe se tentar um novo tipo de relaxamento, um azul que me vai por dentro e que ainda nem sei.
Quem sabe se deixar as roupas, esquecer o fogão, a lição do filho, contas prá pagar, o cansaço...
Eu nunca fui boa em dar conta de tudo isso mesmo... Acabo perdendo o passo, a dança, o riso, e o que espia por debaixo de mim.
Sim! Tudo isso me esbarra em poesia, e quase sempre vejo na pedra surda, os ouvidos dos pés.
Mas agora... Agora não!
Agora ela me vai, escorre, desagua.
Não sou mulher sem versos, tão pouco mulher de inversos.
Há nisso tudo uma ausência de mim; e um tempo sem mim, é por certo, um tempo sem descobertas.
Não me descubro, portanto sou-me incoberta!
Nas conversas com Deus, sempre peço que não me deixe faltar a poesia.
Digo com todas as palavras: "Já me levou muitas coisas Senhor, e de abandono conheço as ruas e todas as esquinas;
há de haver em ti compaixão com minhas palavras, essas tantas que andas me tirando. Devolve!"
Aqui nesta madrugada, acho que ele me ouviu um tiquinho.
Obrigado Senhor!

O título parece o de um filme pornô, e tomando tento de quantas mulheres são violentadas, agredidas e mortas por este mundão a fora, a tal falta de impunidade se parece bastante com pornografia de quinta.
As complicações de ser do sexo penetrável começam por seus buracos. Os desavisados e pouco atentos, acreditam que eles foram feitos apenas pelos orifícios eróticos. Não!
Procure-os com atenção! Os buracos mais (in)desejáveis numa mulher, aos quais me refiro, não estão debaixo das saias. São os que não podem ser vistos quando nos tiram a roupa.
Ele pode estar nas mãos que não levam jeito para afagar; pode estar no peito que se magoa, na ausência de palavras; pode estar no ventre que não gera; pode vir dos olhos cansados de infidelidades; pode estar nos pés que não sabem recuar, nas madrugadas de solidão, no pouso de um corpo envergonhado, na cintura que engrossa, num trabalho humilhante, na timidez da hora errada, nos descalços planos de vida, na submissão; pode estar num parto indesejado, nos minutos que antecedem separações, nos sonhos desfeitos, atrás da insônia, sobre as rugas, na partida de um filho...
Os buracos numa mulher, olhem bem, estão no fundo dos seus olhos, que desviam instintivamente... Pois ali moram segredos de um medo antigo. Não são tocáveis fisicamente, mas uma tênue luz os encobre nas retinas.
Talvez seja isso que faça com que os homens estejam sempre se perguntando: Como decifrá-las?
Não há como... Pois não são elas a serem decifradas, mas seus intensos e solitários mergulhos.
Os bons homens voltam para rever os olhos, querem lê-los! E essa disposição é a única fórmula que faz com que o espírito da mulher submirja do fundo das águas.
O homem que chega perto dos buracos femininos e não os tapa ou penetra, mas delicadamente os enxerga, sem julgamentos ou sem sair correndo quilômetros, já aprendeu bolinar uma alma feminina. E esse gozo, ah esse gozo é infinitamente melhor do que uma noite arrebatadora.
É um gozo que liberta!!

Havia um resto de não, preso entre lábios
a escapar salivas e silêncio
Segura aqui minha mão!
Nunca fui boa com os medos de ontem
Espreitando agoras...
Nem tão pouco soube o que fazer
quando tremor de dentro, espia fora.
Peço-te! Segures teu resto de não
entre os sabores amados de antes
Que já me soube no elo de nossos dedos
varados na fome da pele...
Já me soube o que não pude
no poema que verso fere.

Lá pelos teus ombros e aroma
passou uma tarde toda
percorrendo verdes
dos versos que não chorei
E por não chorar
sobrou-me água muita
entre poros, saudades, retinas!
Que pelas rimas ausentes
me fizeram rios
das vargens aos igapós
onde margens embalaram tempo
de mim, de ti... Do impossível nós!

Ao pé da vida
é por onde andam
os que sabem partir corações descalços

O sal da dor
dói mar
que ondula
e amua
areias

Engolidora de facas? Espadas? Fogo?
Não! Era pouco para quem amava os riscos...
Cresceu mesmo foi engolindo palavras

... Era um silêncio ensurdecedor
que os olhos da voz encheram-se d'água

Do cárcere em mim
mil maneiras
em beiras aprisionadas
E nada me é tão algemado,
nem tão banido porão
que não me vaze
Pequena, pouca; uma quase!
Arrebentação de rio
fio d’água doendo mar deixando-se rio amar
[Que exilado em sal de cio]
Ainda banha-se ferido

Aqueles pés da vida
De um depois
Já visto antes
Eram rastros lentos
Lendo urgências
Rodopiadas de pó
... E me dá um dó,
louco choro danado!
na visão antiga
de um dó empoeirado

... Quando cair da ribanceira
esfole os joelhos
das tuas coerências


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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, AGUA BRANCA, Mulher, de 36 a 45 anos, Esportes, Livros, música
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