AS ROSAS NÃO FALAM...


04/08/2014


Ao meu pai

 

Por onde andará seus olhos? Foi dar uma volta, por certo. Foi até ali, perto daqui, ainda a pouco. Já não vê os degraus, nem lê notícias. Um amigo lhe estende as mãos, e outro e mais outro e não pode atendê-los até que lhes toquem os ombros e dêem um abraço, se desculpando pelo mau jeito. Talvez tenha tropeçado nas inesperadas e inquietantes desilusões daquilo tudo que sonhou pai. Talvez não queira mais ver. 
Um dia, já não dirá para mim que "tá com defeito" como disse hoje... Como se fosse um trilho a sair do lugar, um vagão a descarrilhar.
E olhando bem, ao lado do homem, talvez seja mesmo uma grande composição de ferros, histórias e música.
Mas a verdade é que não admito a vida lhe levar a visão. Não admito que seja em teu olhar, sempre de amplitude, que a força bruta dê o ar da graça. Justo a quem nunca usou de palcos e plateias para levantar bandeira em causa própria e banir a inadmissível e cruel dor, como se ela se dissipasse no tempo e fosse um cisco diante da tua inabalável persistência em não lhe dar o maldito valor. 
Não admito, e a minha não admissão de nada lhe reduz o fato duro... Nem me torna a fada dos contos infantis que a tudo cura; não sou nada. Aliás, não admitir que gente que a gente ama seja privado de qualquer coisa, só nos torna um ser humano pequenino e desprovido de poderes (confesso que passei até aqui sem querer nenhum)... Mas agora quero! 
Fico buscando um poema cuja revolução das palavras possa abrandar o espanto da vida que trapaceia.
Mas espantada fiquei ontem, observando como dribla dissabores. Sentado naquele plenário, olhos fechados, honrando o amigo querido, sua alma cantava, sua voz ecoava, como se nada e nem ninguém pudesse mais que a força de doar-se. 
Invejável alma!
E ao precisar do meu amparo pelas ruas, lembrei das tuas mãos nas minhas ainda pequena, e roguei a qualquer anjo que ali passasse que viesse soprar um milagre em teu anoitecer. Que lhe devolvesse luz onde não há o alcance das brechas.
Parece que até esse instante que escrevo ninguém me ouviu pai; e quase que imediatamente contra tua própria serenidade, me indispus com os deuses. 
E é o diacho essa coisa que faz com que querendo berrar um palavrão, a garganta grite lágrimas.
Resignar-se? Não,não vou resignar-me, não foi algo que ensinou, e portanto vou continuar brigando com os deuses. Foda-se!
Então, dá aqui tua mão... Vamos atravessar a rua agora. O sinal abriu. Não há carros, nem sirenes. Há esse silêncio de uma tarde que machuca. Teu braço no meu braço e duas vidas a conversar. 
- Podemos ir agora. Por aqui pai.
- Não se preocupa tica. Esse defeito há de passar. To segurando você.

 

 


Por fim, fizeste um poema... E foi a mim que salvou.

 

 

 

Escrito por Rosa às 11h18
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